Lembro da vida pobre que a família levava
Das roupas no riacho que minha mãe lavava
Das sopas de miúdos que a família salvava
Comida que mesmo pouca não faltava.
Lembro dos dizeres das dores no pari o primeiro filho
Dores insuportáveis que aguentou com todo brilho
Das necessidades devido a seca comendo milho
Da migração do Nordeste ao Sul sem empecilho.
Lembro do pai com um salário tratando da família
Da casa na serraria sem quase nada de mobília
Da mãe na cozinha parecendo em vigília
Que consciência tínhamos, não tinha Emília.
Recordo das sopas de batatas e miúdos de galinha
Talvez por isso gosto de pescoço, asa, pé e canjinha
A sopa deu-nos vida acompanhado da canjiquinha
Lembranças que não esqueço, ver a mãe na cozinha.
Lembro de visitas de familiares comendo primeiro
Falam até hoje das gostosas sopas de janeiro
É que não sabem o quanto o pai foi obreiro
Garantindo à mãe fazer comida discreta e maneiro.
Se hoje temos emprego, moradia e comida na mesa
Não sabem no passado o que vivemos de surpresa
Matarazzo, serraria, boia-fria e operário de empresa
Além do trabalho na roça e cafezais, vida camponesa.
O passado foi marcante, o presente promissor
O pai se foi, mas os herdeiros é dele defensor
Lembramos das sopas na mesa e do limite divisor
Trabalho e estudos dos filhos, entre eles um professor.
Elias C. Brandão - 09/03/2022